Estava sentada na mesa do café há várias horas. Entre o
texto que estava a escrever no computador e o cappuccino que ia bebericando, não
há exercício de análise de comportamento social mais rico do que este.
O café
situa-se em Hanoi, capital do Vietname, mas encontro os mesmos padrões em
qualquer parte do mundo. Temos o jovem casal apaixonado, que divide uma fatia
de bolo de cenoura, o grupo de amigos barulhento, o solitário que se faz acompanhar
de um livro, as amigas de meia-idade que se encontram para um chá e os
viajantes que trocam dicas de roteiros.
Mas um casal em particular chamou imediatamente a minha
atenção quando entrou. Ele europeu, ela asiática, os dois lindos. Tenho esta
mania de apreciar um casal como um todo. Simplesmente há pessoas que ficam bem
juntas, cujo tipo de beleza se complementa e harmoniza.
Adiante, os dois sentaram-se perto de mim e, uma hora
depois, ainda não tinham trocado uma palavra. Ele disfarçava o incómodo agarrado
ao computador, olhando para ela de soslaio a cada cinco minutos. Ela, de costas
voltadas para ele, estava frente a frente comigo. De vez em quando, via-a
limpar disfarçadamente uma lágrima no canto do olho. Olhei para ela várias
vezes, numa tentativa de conforto. Até que decidi sorrir abertamente. Ela,
surpreendida, sorriu de volta mas com uma expressão ainda mais triste.
Instintivamente, encolhi os ombros e lancei-lhe um olhar de cumplicidade
feminina que tenho a certeza que ela compreendeu: “Vá lá, de certeza que o que
ele fez é tão grave que não o podes perdoar?”. Ela sorriu-me, olhou para ele e
ensaiou um sorriso. Ele disse alguma coisa e os dois levantaram-se e saíram do
café de mãos dadas, presumo que para conversarem num local mais reservado.
Já lá fora, ela olhou novamente para mim, sorriu e disse
adeus. Às vezes não é errado metermos o nariz onde não
somos chamados, às vezes tudo o que alguém precisa é de um empurrão de uma
desconhecida.